Com um pretenso épico chega ao fim a trilogia de Cristopher Nolan com o personagem da DC Comics. Batman – The Dark Knight Rises é um filme acima da média, como os outros filmes da franquia, muito embora tenha deixado em mim a impressão de que poderia ter sido muito melhor, tivesse deixado alguns temas de lado e concentrado em outros. O grande mérito de Nolan com seus três filmes é criar um universo verossímil para o personagem – veja que eu escrevi VEROSSÍMIL, ao invés de REALISTA, como a maioria das pessoas se refere aos filmes.
Realismo e Verossimilhança em um filme de Super-Herói espião.
O quão próximo do real é um milionário que decide vestir-se de morcego para espancar bandidos enquanto espera inspirar pessoas a ter uma atitude pró-ativa em uma cidade corrupta e violenta? E todas aquelas traquitanas hiper-tecnológicas, principalmente as utilizadas pelos vilões do primeiro e terceiro filmes em seus grandiosos planos de extermino da hipocrisia pelo terror (o que lembra em muito os objetivos do Batman, não fosse envolver o genocídio de uma cidade inteira – e vale lembrar aqui que a Gotham de Batman é correspondente a uma “Gothic-Manhattan” – assim é bom ter em mente que os ataques terroristas do primeiro e terceiro filmes são um equivalente a um 11 de setembro exagerado)?
Não, Batman não é realista – a premissa de um herói fantasiado nunca será realista (e coisas como o The Real Life Super Hero Project é só um bando de gente com a pilha muito errada), mas é verossímil, o Batman de Nolan consegue fazer você mergulhar no universo que os filmes apresentam e aceitar aquilo como se fosse algo possível.
Até Blade e X-men o cinema de super-heróis tentava emular a lógica e visual dos quadrinhos do gênero, coisa impossível pelas especificidades dos meios e o resultado, sabemos, sempre foi desastroso (com a honrosa exceção de Superman de 1978). Blade obteve sucesso e mostrou os rumos a outras adaptações de quadrinhos ao aproximar a narrativa a outro gênero com maior tradição cinematográfica (o terror, no caso). X-men de 2000 segue o mesmo caminho ao transformar os mutantes em uma metáfora das minorias sociais em uma ficção cientifica sombria. O misto de ficção cientifica e filme de ação parece ser a tônica dos filmes de super-herói desde então, com a eventual adição de humor ao mix (como é o caso de Homem-Aranha e Kick-Ass).
Batman inova ao aproximar ao máximo possível o herói aos filmes de ação e espionagem. É bem possível enxergar Bruce Wayne como um 007 #chatiado e Bane como uma atualização de focinheira do célebre vilão Jaws ( de “O espião que me amava” e “007 Contra o Foguete da Morte”) com a voz e o sotaque de um Sean Connery enlatado. Talvez desse abandono da ficção cientifica (que está presente, mas sob o disfarce de uma tecnologia bélica “possível” nas justificativas de Lucius Fox) a atualização dos filmes de espionagem ainda pode ser vista em TDKR na substituição da temática da segurança nacional pelas intrigas corporativas e ameaças terroristas aos civis, em conformidade com o zeitgeist do mundo livre.
The Dark Knight Rises e seu lugar na trilogia
Assim entendido, está trilogia do Batman tem seus méritos na abordagem inovadora e atualização dos gêneros híbridos de que se serve para contar a saga do personagem. O dialogo entre os filmes como um todo funciona muito bem ainda que o último filme tenha as falhas mais evidentes e o uso excessivo de clichês (o uso rasgado formato da saga do herói, coincidências forçadas no roteiro, outros elementos que ameaçam a verossimilhança como o retorno dos políciais soterrados, toda a cena da bolsa de valores e a cura de Bruce Wayne do ferimento na coluna, etc). O Duanne fez um excelente trabalho nos aspectos ideológicos lá no Digestivo Cultural. Acho que a personagem da Marion Cotillard faria mais sentido se tivesse sido inserida no segundo filme e o Coringa realmente faz muita falta neste fechamento da saga.
No aspecto emocional o filme também deixa de explorar a cena em que Bane finalmente “quebra” o Batman em uma cena rápida e de pouco destaque. São poucas as cenas em que somos levados a envolvimento emocional com o filme, apesar de Cristian Bale estar muito bem como Bruce Wayne, não consegui me conectar ao drama pela rapidez com que tudo acontece na tela. Mas Michael Caine, na cena do cemitério, compensa toda a emoção que faltou ao filme. Esta cena consegue passar todo o carinho paternal e culpa que a sua relação de cúmplice gerou no mordomo.
John Blake é completamente desnecessário e o filme podia passar sem o personagem de Joseph Gordon-Levitt. Já Selina Kyle, vivida por Anne Hattaway, é talvez a melhor coisa de TDKR – uma anti-heroína complexa, carismática e imprevisível.
Assim, The Dark Knight Rises é um filme cheio de falhas, mas que se sustenta no bom trabalho dos filmes anteriores e é bem sucedido em fechar a saga com um balanço final positivo.



